Burlas e fraude
Burlas deepfake em videochamada: como detetar uma cara ou uma voz falsa numa chamada em direto
Resposta rápida
Uma videochamada deepfake usa IA para pôr uma cara ou uma voz falsa numa chamada em direto, muitas vezes para se fazer passar por um match, um chefe ou uma autoridade. Para a testar, peça à pessoa que vire a cabeça totalmente de lado, que passe a mão à frente da cara e que responda a uma pergunta que só a pessoa verdadeira saberia. Depois verifique fora da chamada: desligue e ligue de volta para um número que já tinha, ou peça uma palavra-código. Nunca envie dinheiro só por causa de uma videochamada.
Números-chave
- 893 milhões de dólaresperdidos em 22 364 queixas ao FBI em 2025 que envolveram inteligência artificialFBI IC3 2025 Internet Crime Report
- 25 milhões de dólaresenviados por um funcionário da Arup em Hong Kong depois de uma videochamada em que o diretor financeiro e os colegas eram deepfakesCNN, maio de 2024
- 46 milhões de dólaresobtidos por uma rede de burlas românticas de Hong Kong que usava deepfakes de troca de rosto em videochamadas; 27 pessoas detidasThe Record, outubro de 2024
- 39,2 milhões de librasperdidos em burlas românticas no Reino Unido em 2025, mais 23%, em 6335 casosUK Finance Annual Fraud Report 2026
Durante anos, o conselho clássico para quem procurava par online era simples: faça uma videochamada. Se a pessoa recusar, provavelmente é burla. Esse conselho está hoje incompleto. Os criminosos conseguem pôr outra cara e outra voz numa chamada em direto, em tempo real, e estão a usar estas burlas deepfake em videochamada em burlas românticas, falsas entrevistas de emprego e fraudes contra empresas.
O dinheiro é real. Em 2025, as queixas ao FBI que envolveram IA declararam 893 milhões de dólares em perdas, em 22 364 queixas. A boa notícia: os deepfakes em direto ainda falham perante testes simples, e alguns hábitos tornam-nos inúteis mesmo quando parecem perfeitos.
Os burlões conseguem falsificar uma videochamada?
Sim. Os burlões podem usar ferramentas de troca de rosto e de clonagem de voz para aparecer como outra pessoa numa videochamada em direto, e o FBI já alertou que os criminosos geram vídeo para “videochamadas em tempo real” com supostos executivos de empresas, polícias e contactos românticos.
O alerta do FBI de dezembro de 2024 sobre fraude com IA generativa enumerou três usos de vídeo: conversas em direto em que se fazem passar por executivos ou figuras de autoridade, vídeos privados para “provar” que um contacto online é uma pessoa real, e falsos vídeos promocionais de esquemas de investimento. A clonagem de voz é usada para imitar um familiar numa crise, ou para entrar em contas bancárias com uma imitação da voz do titular.
Que exemplos reais há de burlas deepfake em videochamada?
Os casos mais conhecidos vêm do mundo empresarial, mas os burlões românticos usam as mesmas ferramentas. Estes são casos confirmados pela polícia ou pela empresa envolvida.
- Arup, Hong Kong (início de 2024): um funcionário financeiro da empresa de engenharia enviou 200 milhões de dólares de Hong Kong, cerca de 25 milhões de dólares norte-americanos, em 15 transferências, depois de uma videoconferência com o “diretor financeiro” da empresa e outros colegas. Todos eram deepfakes. Tinha suspeitado de que o email original era phishing, mas pôs as dúvidas de lado porque as pessoas na chamada pareciam e soavam como os colegas, noticiou a CNN.
- Rede de burlas românticas em Hong Kong (outubro de 2024): a polícia deteve 27 pessoas por uma burla que rendeu cerca de 46 milhões de dólares. Quando as vítimas pediam uma videochamada, o grupo usava deepfakes para aparecer como mulheres atraentes e depois levava as vítimas para falsas plataformas de trading de criptomoedas, noticiou o The Record.
- Ferrari (julho de 2024): um executivo recebeu mensagens no WhatsApp e depois uma chamada com a voz clonada do CEO, Benedetto Vigna. Reparou numa entoação estranha e perguntou que livro Vigna lhe tinha recomendado dias antes. O interlocutor desligou, noticiou a Fortune.
- Altos responsáveis dos EUA (2025 a 2026): o FBI alertou em maio de 2025 e novamente em dezembro de 2025 que os criminosos enviam mensagens de voz geradas por IA a fingir ser altos responsáveis do governo, e depois levam os alvos para o Signal, o Telegram ou o WhatsApp para pedir dinheiro, documentos ou códigos de acesso.
- Falsos vídeos do FBI (julho de 2026): o FBI alertou para vídeos deepfake de um alto dirigente do FBI usados para levar vítimas de burlas a um falso site de queixas, para as roubarem uma segunda vez.
Como funcionam as burlas românticas com deepfake?
As burlas românticas com deepfake usam IA para passar o teste em que quem procura par mais confia: a videochamada. O burlão constrói a relação por mensagens, aceita uma videochamada curta com uma cara emprestada ou gerada, e usa essa chamada como prova de que é real antes de pedir dinheiro ou empurrar um “investimento” em criptomoedas.
As chamadas são normalmente curtas, à noite, com uma “ligação má” ou a partir de um “local de obra”. Os bancos também estão a ver esta tendência: no Reino Unido, as perdas em burlas românticas subiram 23%, para 39,2 milhões de libras, em 2025, segundo o UK Finance. Se o seu match passou numa videochamada mas agora precisa de dinheiro, cartões-oferta ou criptomoedas, considere que a chamada não vale nada e leia os sinais de alerta de uma burla romântica.
Como detetar um deepfake numa videochamada em direto?
Para detetar um deepfake em direto, peça à pessoa que faça coisas que o software faz mal: virar-se de lado, pôr a mão à frente da cara, mexer num objeto e responder a algo que só a pessoa verdadeira sabe. A maioria das trocas de rosto em tempo real é construída a partir de fotos de frente, por isso deformam-se, tremem ou escorregam quando a cabeça vira ou quando algo passa à frente da cara.
Testes a pedir
- O perfil. “Podes virar a cabeça totalmente para o lado por um segundo?” Observe o maxilar, as orelhas e a linha do cabelo.
- A mão. “Passa a mão devagar à frente da cara.” Os dedos podem ficar desfocados, desaparecer ou atravessar a cara.
- O teste do objeto. Peça-lhe que mostre uma chávena, uma caneta ou o talão de hoje, ou que toque no nariz ou tape um olho.
- O teste da divisão. “Mostra-me o que tens atrás de ti.” Fundos planos, estáticos ou em repetição são um sinal de alerta.
- A pergunta de memória. Pergunte algo que faça parte da vossa história privada e não esteja online, como a pergunta do livro no caso da Ferrari.
- A partilha de ecrã (chamadas de trabalho). Peça-lhe que partilhe o ecrã e abra um ficheiro específico que deveria ter. Isso é muito difícil de falsificar.
Sinais de uma cara ou voz falsa
- Desfocagem ou tremura na linha do cabelo, nas orelhas ou no maxilar, sobretudo quando a pessoa se mexe.
- Lábios ligeiramente dessincronizados com as palavras, sorrisos congelados, pestanejar estranho.
- Sombras e luz que não condizem com a divisão.
- Uma voz monótona, estranhamente suave, sem respirações, ou com pequenos atrasos na chamada.
- Hábitos de fala em falta: o sotaque, as expressões ou as frases feitas da pessoa verdadeira não estão lá.
- Insiste que a câmara está avariada, que a ligação está má ou que a chamada tem de ser muito curta.
Estes testes apanham muitos deepfakes, não todos. As ferramentas estão sempre a melhorar. Trate um teste bem-sucedido como “talvez seja real”, nunca como autorização para enviar dinheiro.
Como confirmar fora da chamada que alguém é real?
Confirme fora da chamada, porque um deepfake controla tudo o que se passa dentro dela. Os dois hábitos que derrotam quase todas as versões desta burla são a chamada de volta e a palavra-código.
- Ligue de volta para um número conhecido. Desligue e ligue à pessoa para um número que já tinha, ou para um número de um site oficial. O FBI dá este conselho em todos os alertas sobre IA.
- Use uma palavra-código. Combine antecipadamente uma palavra de família ou de equipa e peça-a quando um pedido for urgente. O FBI também recomenda uma palavra ou frase secreta em família.
- Verifique a identidade por trás da cara. No caso de um match, confirme que o nome, a profissão e a cidade correspondem a uma pessoa real. O nosso guia sobre como verificar alguém de uma app de encontros explica como, e pode fazer você mesmo uma pesquisa inversa das fotos com o Google Lens ou o TinEye.
- Abrande o dinheiro. No trabalho, qualquer alteração de pagamento ou transferência urgente exige uma segunda pessoa e uma chamada de volta. Em casa, espere 24 horas e fale com alguém de confiança.
Uma pesquisa de encontros no Search A-Z verifica se o nome, a profissão e a cidade que o seu match lhe deu pertencem a uma pessoa real, e quão certos estamos de que é a mesma pessoa. Verifica também se o número de telefone é real, se é de telemóvel ou de internet (VoIP), e se o email ou o número têm risco de fraude. Nunca mostra uma morada, apenas a cidade, e o seu match nunca é avisado da sua pesquisa. Também pode adicionar até 3 fotos do perfil e fazemos uma pesquisa inversa para mostrar onde mais aparecem online. Para quem vive nos EUA, verificamos também o registo público de agressores sexuais.
O que devem a minha família ou a minha equipa combinar já?
Combinem as regras antes de alguém receber a chamada, porque sob pressão as pessoas seguem hábitos, não conselhos. Ponham-nas por escrito.
| Situação | Regra |
|---|---|
| Um familiar em apuros pede dinheiro | Peça a palavra-código e depois ligue de volta para o número habitual |
| O chefe ou o diretor financeiro pede uma transferência urgente por vídeo | Ligue de volta para o número da lista interna; é obrigatória uma segunda aprovação |
| Novos dados bancários de um fornecedor | Confirme por telefone com um número de uma fatura ou contrato antigo |
| Um match “prova” por vídeo que é real e depois precisa de dinheiro | Nada de dinheiro, cartões-oferta ou criptomoedas a quem não conheceu pessoalmente |
| Um funcionário público, agente ou polícia numa videochamada | Desligue; contacte a entidade através do site oficial |
Reduzir o que os burlões podem copiar também ajuda. O FBI sugere manter as contas sociais privadas e limitar, sempre que possível, os vídeos e as gravações de voz públicos.
O que devo fazer se achar que estou numa chamada deepfake?
Termine a chamada com educação e contacte a pessoa por um canal em que já confia. Não precisa de provar primeiro que é falso. Um amigo, um companheiro ou um chefe verdadeiro compreende uma verificação de dois minutos.
“Desculpa, a ligação está a falhar. Já te ligo para o número do costume.”
- Não envie nada. Nada de dinheiro, cartões-oferta, criptomoedas, documentos de identificação ou códigos de uso único.
- Guarde provas. Capturas de ecrã do perfil e da conversa, o número ou o nome da conta, datas e valores.
- Se já pagou, ligue já para o banco. Peça para travar ou anular o pagamento. A rapidez conta sobretudo nas primeiras horas.
- Denuncie. EUA: ic3.gov e reportfraud.ftc.gov. Escreva ic3.gov diretamente no navegador: o FBI alerta para sites falsos do IC3 e diz que o verdadeiro IC3 nunca o contacta nem cobra taxas. Reino Unido: Report Fraud (0300 123 2040) em Inglaterra, no País de Gales e na Irlanda do Norte, ou Police Scotland pelo 101. UE: o site de denúncia de cibercrime da polícia do seu país, listado na página de denúncias da Europol. Portugal: Polícia Judiciária pela queixa eletrónica, ou PSP e GNR na Queixa Eletrónica; a Linha Internet Segura (800 21 90 90) dá apoio gratuito.
- Denuncie o perfil. Use o botão de denúncia da app de encontros ou da plataforma para que possam remover a conta.
- Cuidado com as burlas de recuperação. Quem o contactar a oferecer-se para recuperar o seu dinheiro a troco de uma taxa está quase de certeza a montar uma segunda burla.
Em resumo
Uma videochamada já não prova que alguém é real. Use os testes em direto para apanhar os deepfakes mais grosseiros, mas confie no que um deepfake não controla: uma chamada de volta para um número que já tinha, uma palavra-código e uma regra firme de que ninguém recebe dinheiro só por causa de uma chamada.
Perguntas frequentes
Um deepfake pode ser usado numa videochamada em direto?
Sim. As ferramentas de troca de rosto e de clonagem de voz em tempo real conseguem mudar a aparência e a voz de alguém durante uma chamada em direto. O FBI já alertou que os criminosos usam vídeo gerado por IA em conversas em direto para se fazerem passar por executivos, autoridades e contactos românticos.
Qual é a forma mais rápida de testar se é um deepfake?
Peça à pessoa que vire a cabeça totalmente para o lado e que passe a mão devagar à frente da cara. Muitos deepfakes em tempo real deformam-se ou tremem. Depois faça uma pergunta a que só a pessoa verdadeira saberia responder.
Um deepfake consegue imitar uma voz numa chamada telefónica?
Sim. A clonagem de voz por IA consegue copiar a voz de alguém a partir de gravações. Esteja atento a um tom monótono, à falta de respirações e a pausas estranhas, mas a verificação mais segura é desligar e ligar de volta para um número que já tinha, ou pedir uma palavra-código.
O meu match fez uma videochamada comigo. Isso quer dizer que é real?
Por si só, não. Redes de burlas românticas com deepfake já passaram em videochamadas. Confirme que o nome, a profissão e a cidade correspondem a uma pessoa real, e nunca envie dinheiro a quem não conheceu pessoalmente. Veja como verificar um match.
O que é uma palavra-código de família?
Uma palavra ou frase que a família combina com antecedência e nunca publica online. Se alguém ligar a dizer que é um familiar numa emergência, peça-a. O FBI recomenda-o nos seus alertas sobre fraude com IA.
Onde denuncio uma burla deepfake?
EUA: ic3.gov e reportfraud.ftc.gov. Reino Unido: Report Fraud pelo 0300 123 2040 (Inglaterra, País de Gales, Irlanda do Norte) ou Police Scotland pelo 101. UE: o site de denúncia de cibercrime da polícia do seu país; em Portugal, a Polícia Judiciária ou a Queixa Eletrónica da PSP e da GNR. Denuncie também a conta à plataforma.
Fontes
- FBI IC3, 2025 Internet Crime Report
- Alerta do FBI: criminosos usam IA generativa para facilitar fraudes financeiras (dezembro de 2024)
- Alerta do FBI: altos responsáveis dos EUA usurpados numa campanha maliciosa de mensagens (maio de 2025)
- Alerta do FBI: altos responsáveis dos EUA continuam a ser usurpados (dezembro de 2025)
- Alerta do FBI: burlões que se fazem passar pelo IC3, incluindo com vídeos deepfake (julho de 2026)
- CNN: a Arup confirma ter sido vítima de uma burla deepfake de 25 milhões de dólares (maio de 2024)
- The Record: polícia de Hong Kong desmantela rede de burlas românticas com deepfakes de troca de rosto (outubro de 2024)
- Fortune: executivo da Ferrari trava deepfake do CEO com uma pergunta de segurança (julho de 2024)
- UK Finance Annual Fraud Report 2026
- Kaspersky: como reconhecer um deepfake (fevereiro de 2026)
- City of London Police: o Report Fraud substitui o Action Fraud
Os números são os mais recentes publicados por cada fonte quando este guia foi atualizado. As perdas comunicadas são um mínimo: a maioria das burlas nunca é denunciada.